Humildade na Umbanda.

Humildade na Umbanda. Ilustração artística de uma Preta Velha abençoando um fiel com ervas sagradas, com os dizeres "Amar não é tolerar. Amar é Respeitar", representando a doutrina de humildade e respeito do Terreiro Pena Verde.

Humildade na Umbanda: O Verdadeiro Fundamento Além da Máscara do Ego

Na Umbanda, muito se fala sobre humildade, mas em algum momento da história religiosa, o termo foi esvaziado. Virou um sinônimo genérico de “pessoa evoluída” ou um elogio barato para evitar conflitos. No entanto, o umbandista de hoje, embora use a palavra em cada frase, muitas vezes está quilômetros de distância de ser verdadeiramente humilde. O que vemos nos terreiros, infelizmente, é uma disputa silenciosa de vaidades disfarçada de axé.

O que não faltam são umbandistas tentando se sobrepor ao outro através do tempo de casa ou do cargo que ocupa. Usam o título de Dirigente, Pai/Mãe Pequena ou o tempo de batismo como uma arma para calar o iniciante. Acreditam que o fato de estarem há mais tempo no solo sagrado lhes dá o direito de invalidar a forma como o irmão pratica sua fé, como se apenas a “sua” Umbanda, a Umbanda do seu terreiro, fosse a detentora da verdade absoluta.

O Significado Real: Humildade vs. Submissão

Ainda há uma confusão profunda sobre o real significado de ser humilde. Muitos confundem humildade com resignação ou submissão, mas são estados de espírito totalmente diferentes.

A palavra humildade vem do latim humilitas, que por sua vez deriva de humus (terra). É a virtude que consiste em conhecer as suas próprias limitações e fraquezas e agir de acordo com essa consciência. Refere-se à qualidade daqueles que não tentam se projetar sobre as outras pessoas, nem mostrar ser superior a elas. Mas que fique claro: ser humilde não é ser submisso!

É muito fácil se dizer humilde quando se é o iniciante, o “coitadinho” que ainda não sabe nada. Porém, essa submissão disfarçada de virtude dura pouco. Basta a pessoa ganhar um pouco de conhecimento, tempo de casa ou um cargo dentro do terreiro para que a suposta humildade desapareça instantaneamente, dando lugar à arrogância de quem se sente “pronto”.

O que é ser Humilde na Vivência do Pena Verde?

Ser humilde na Umbanda, conforme os ensinamentos da Mãe Bia, é compreender que não importa quanto tempo de jornada você tenha: todos somos eternos aprendizes. Não há demérito em se colocar na posição de quem ainda tem o que aprender.

  1. A Igualdade dos Guias: Deter uma verdadeira humildade é saber que você pode ser o aparelho do próprio Caboclo das Sete Encruzilhadas e, nem por isso, sentir-se mais importante que o irmão que trabalha com um Caboclo desconhecido. O Axé não é uma hierarquia de prestígio espiritual, mas de serviço.

  2. Respeito à Diversidade de Ritos: Ser humilde é tratar a todos com igualdade e respeito. E quando falamos “todos”, é o respeito inclusive para com quem louva os Orixás de uma forma diferente da nossa. A intolerância dentro da própria religião é o maior sinal de falta de humildade.

  3. Lugar de Opinião: Não é falta de humildade discordar de um irmão ou expor sua opinião de forma firme. A falta de humildade está em tentar calar o outro valendo-se da hierarquia. A hierarquia na Umbanda serve para organizar o trabalho, não para oprimir a voz.

O Valor do Trabalho Silencioso e a Benção

Dentro do Terreiro Pena Verde, compreendemos que todos os filhos são vitais. O médium que incorpora a entidade chefe tem o mesmo valor espiritual que o cambone que zela pelo toco ou a pessoa que varre o chão antes da gira começar. Sem a limpeza do chão, o solo não está pronto para o sagrado. Sem o cambone, a caridade não se completa.

O umbandista que entende realmente o que é humildade não se sente humilhado por ter que pedir a benção à Mãe ou ao Pai do terreiro. Da mesma forma, o zelador não se envaidece por ter filhos lhe pedindo a benção. Ambos compreendem que esse é um ato de amor e respeito ancestral, e não uma demonstração de submissão ou humilhação de uma parte perante a outra.

Quebrando o Círculo Vicioso da Arrogância

Embora muitos irmãos façam questão de esquecer, ninguém nasceu sabendo. Todos tivemos um primeiro dia, uma primeira dúvida, um primeiro tropeço. Ter humildade é lembrar-se do seu início. É recordar como foi ser ajudado para que, hoje, você possa ajudar o iniciante com amor, e não com a arrogância de quem se sente superior.

Se você, em sua caminhada, foi tratado com desdém quando era iniciante, não repita esse padrão. Quebre o círculo vicioso da prepotência. Seja você a humildade que não recebeu quando entrou na religião.

Para Levar Além do Congá

Muitas vezes me questiono o que alguns médiuns têm aprendido dentro de seus terreiros. O básico — como respeito, igualdade e amor ao próximo — são os pilares da nossa prática, mas parecem esquecidos no portão de saída. É tempo de revermos nossas atitudes fora do terreiro. Tudo o que aprendemos dentro da Umbanda é para ser usado na vida, 24 horas por dia. Se a sua humildade só existe quando você está de branco, ela não é real; é apenas um figurino.

Estudos de Mãe Bia. Axé.

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