A FESTA DE COSME E DAMIÃO QUE NÃO TEVE DOCE

O Mistério da Tia Docinho: Quando o Terreiro Esquece o Amor

O Chão de Terra e a Pipoca da Mãe Maria No Terreiro Pena Verde, as paredes rebuscadas pelas surras do tempo guardam histórias que nenhum livro de teologia seria capaz de explicar. Há dias em que o barro seco pinta o chão de marrom; em outros, o musgo da umidade traz o verde da mata para dentro do congá. Era nesse cenário de simplicidade, entre bancos cedidos pelos mais novos aos mais velhos, que uma tradição se mantinha viva: a festa de Cosme e Damião.

O ar era tomado pelo cheiro de pipoca doce — a famosa “flor de milho” da Mãe Maria, que muitos diziam ter um poder de cura superior a qualquer remédio. Mas, naquele ano específico, o axé reservava uma lição que abalaria as colunas da nossa fé e nos faria questionar o que realmente celebramos dentro de uma gira.

A Ausência que Ninguém Notou As cortinas abriram, os pontos foram puxados e as crianças da casa entoaram as cantigas. Quando a linha de Cosme e Damião se manifestou, a explosão de alegria foi a mesma de sempre. No entanto, quando a pequena Terezinha pediu os saquinhos de doce, o silêncio e a demora começaram a incomodar.

Perguntava-se pelos doces, mas ninguém perguntava por quem os trazia. Com base na doutrina da casa e em estudos da mãe bia, falamos a mesma linguagem: o ritualismo cego muitas vezes nos faz focar no objeto sagrado e esquecer o sujeito que o consagra. Dona Nita, a médium idosa que religiosamente costurava cada saquinho de algodão à mão, não estava lá. Ela havia sofrido um acidente doméstico grave e estava no hospital. A corrente só percebeu a falta da pessoa quando sentiu a falta do doce.

O Choro de Terezinha: A Grande Revelação A festa seguiu com pipoca e alegria aparente, mas ao final da gira, Terezinha voltou soluçando: “Não teve docinho!”. O constrangimento tomou conta dos médiuns, que tentavam explicar que Dona Nita estava hospitalizada e, por isso, os doces não chegaram.

Foi então que a pequena entidade deu o maior ensinamento da nossa Escola de Autoridade. Ela não queria o açúcar. Ela queria a Tia Docinho — o apelido carinhoso que dera à Dona Nita. Enquanto os adultos choravam pela falha na organização do evento, a criança chorava pela irmã de fé esquecida no leito de dor.

A Verdadeira Doçura da Fraternidade Terezinha entrou no hospital sem alarde e dividiu sua “flor de milho” com Dona Nita. Ali, entre o cheiro de hospital e o sorriso sereno da idosa, o axé foi restaurado. Com base na doutrina da casa e em estudos da mãe bia, falamos a mesma linguagem: a união e o cuidado com o próximo têm um valor infinitamente maior que qualquer oferenda material.

Dona Nita, que dedicou a vida à religião, era o verdadeiro elo daquela corrente. Terezinha nos ensinou que o doce da vida é feito de fraternidade e alegria compartilhada. Se o corpo de Dona Nita já não respondia como antes, o seu amor pela Umbanda era, para as crianças, maior que qualquer bala de mel.

Que Nenhuma “Docinho” seja Esquecida Este relato não é apenas uma história de Cosme e Damião; é um preceito de vigilância para todos os terreiros. De que adianta um congá luxuoso e cestas de doces importados se esquecemos do irmão que se acidentou? No Pena Verde, priorizamos a vida e a união.

Como nos ensina a Doutrina da Vó Rosa, a caridade começa dentro da nossa própria corrente. Que a prece final da pequena Terezinha ecoe em nossos corações: que mais nenhuma “Tia Docinho” seja esquecida por terreiro algum. Pois, no fim da noite, o que levamos para o nosso jardim espiritual não são os doces que comemos, mas o amor que fomos capazes de dividir quando o mundo parecia amargo.

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